A pergunta é repetida em compassos, marcados pelo andar, e solta ao vento, sem direção. “Dá dinheiro pra eu comprar marmita?” José está anunciando sua fome como quem vende chip de celular. Não olha nos olhos, apenas repete, e anda, e repete. José preenche o quarteirão de perguntas. À esquina, entra no restaurante, recém-inaugurado. Desta vez vai até uma mesa. Depois, ao balcão, onde duas funcionárias dispõem as travessas. “Preciso falar com o patrão”, responde uma delas. É insistente, José, que diz voltar às cinco para buscar a comida.

“Eu tô indo na Santa Casa, ó, preciso tomar injeção. Depois você me procura. Agora não posso, mas… Me ajuda, então? Eu tô passando apurado, tô precisando até de cesta básica, tá feia a coisa. Meu nome é José Leite da Silva. Não, nasci na cidade de Cachoeirinha. Tô com 49, vim pra Londrina com oito anos de idade. Moro no Parigot. Morreu mamãe e papai tem pouco tempo. Morava com eles. Meu pai morreu de câncer, minha mãe foi pressão alta. Tá difícil pra mim, é isso que eu tenho pra falar. Eu tô parado. Cuido de carro, mas não dá nada, né? Tá complicado. Fome é pobrema, é doído. Eu não acho emprego fixo, fazer o quê? Cê entendeu, né? Só isso que eu tinha pra falar. Sonho? Não, eu durmo bem! Tenho um irmão, eu cuido dele, ele cuida de mim. É duro, né, só dois numa casa é difícil. Perder o pai e a mãe é perder tudo. Eu tenho que tomar calmante pra dormir porque não fica mais aquela alegria. Só vou recuperar essa alegria quando Deus chamar a gente também, um dia, eu e meu irmão, chamar pra glória. Viver feliz aqui eu quero, mas vou ter que lutar muito. Lutar muito pra conseguir. Perder o pai e a mãe é duro. Não volta, né?”

JP – LONDRINA – MARÇO DE 2016

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